Terapeutas, cientistas, democratas e inquisidores

“No programa da RTP Prós e Contras, na última segunda-feira, houve um debate em que de um lado estavam médicos e do outro uns senhores que praticam umas aldrabices a que, estupidamente, se convencionou chamar medicinas alternativas”
Pedro Marques Lopes (1)

“”Quando o “Prós e Contras” põe cientistas a debater com curiosos …”
Daniel Oliveira

“A derrota pode ser declarada mesmo antes da primeira intervenção, porque quando se dá palco a um grupo de charlatões o público fica com a impressão de que eles estão ao nível dos médicos e dos cientistas. Não estão, trata-se de uma equivalência tão falsa como pôr astrólogos a discutir com astrónomos.”
Vasco Barreto

Há 2 ideias que são comuns na literatura e que simplificam demasiado o problema não permitindo uma análise correta do mesmo. Em primeiro lugar o pressuposto errado que de um lado temos cientistas e pessoas informadas e honestas e do outro charlatões, ignorantes e curiosos. Em segundo lugar o pressuposto que de um lado está a melhor evidência científica e só a melhor evidência científica e do outro a completa ausência de evidência científica. O próprio programa que deu origem a estes artigos (Prós e Contras) parte deste pressuposto. Estes 2 pressupostos base estão completamente errados.

Não existe uma diferenciação entre terapeutas e profissionais de saúde ou cientistas e curiosos como se quer fazer crer. Muito terapeutas TNC são profissionais de saúde. Médicos a fazerem acupuntura ou homeopatia, fisioterapeutas com acupuntura e osteopatia, enfermeiros com acupuntura, nutricionistas com fitoterapia e medicina chinesa, etc…
A ideia que os terapeutas TNC são todos contra a medicina e os médicos e cientistas todos contra as TNC também é errada. Existem terapeutas das TNC que defendem ideias sem apoio cientifico como a homeopatia. Mas também existem profissionais de saúde não TNC que as defendem. Existem terapeutas TNC contra a vacinação e existem a favor.
A ideia que todas as TNC não tem qualquer fundamento cientifico está errada. Existem terapêuticas sem sustentação cientifica (homeopatia) mas existem terapêuticas com forte sustentação cientifica (osteopatia).

Em segundo lugar vem a importância da evidência que é um ponto fulcral para separar astrólogos de astrónomos, cientistas de charlatões, médicos de terapeutas… No entanto nem a Medicina Ocidental tem tanta evidência quanto se vende nem as Terapêuticas Não Convencionais tem tanta falta de evidência.(9)
Supostamente a fitoterapia não tem evidência cientifica para ser usada e tudo o que não tem evidência cientifica não deve ser usado como cuidado de saúde. No entanto, 50% da medicação usada em pediatria é prescrição off label o que significa que não tem evidência cientifica. E existe fitoterapia com evidência cientifica e clinica obtida através de estudos de caso, estudos in vivo, estudos in vitro, redes neurais, etc… Se a fitoterapia não tivesse sucesso clinico dificilmente as farmacopeias tradicionais poderiam servir de base de trabalho para as farmacêuticas procurarem novas moléculas para patentearem.
Muitas técnicas osteopáticas e a própria acupuntura tem mais evidências cientificas a favor do que muitos tratamentos de medicina ocidental. A apresentação destes 2 pontos de vista como completamente antagónicos e facilmente diferenciáveis é enganador. Como em todas as áreas de saúde temos de saber trabalhar com diferentes níveis de evidência.

A maioria dos comentadores vive de ideias demasiado infantis e imaturas para conseguirem uma análise objetiva e séria dos problemas de saúde dentro e fora das TNC. O mundo não é preto e branco. Esta divisão entre médicos e charlatões é imaginária, simplista e injusta. O preto e o branco são uma minoria num mundo maioritariamente cinzento. Mas é esta minoria que tende a monopolizar o discurso público.

Other misconceptions

Método cientifico e marketing

“Nenhuma destas terapias da moda segue este método. E é isso que as defende: com a propaganda certa, podem continuar a errar eternamente. Elas sim, baseiam-se na tradição”
Daniel Oliveira

“Instalou-se a ideia de que a abertura a este tipo de modas é sinal de um maior pluralismo, típico de sociedades democráticas. Mas é a ciência que está predisposta a confrontar-se com o escrutínio, a experimentação, a prova e o contraditório.”
Daniel Oliveira

A ideia do Daniel Oliveira não poderia estar mais desfasada da realidade. E o problema parte imediatamente dos pressupostos básicos referidos acima. Ela aplica-se perfeitamente à homeopatia mas perde-se por completo noutras áreas como a fitoterapia, a acupuntura ou osteopatia.
Um dos factores impulsionadores da fitoterapia foi o grande crescimento e inovação nas técnicas laboratoriais nos anos 80 e 90. Com estas técnicas era possível estudar in vivo e in vitro a ação dos fitoquímicos presentes nas plantas medicinais ou fórmulas tradicionais. A literatura científica é extremamente rica na compreensão e análise das vias celulares usadas pelos diferentes fitoquimícos. Técnicas mais recentes usando inteligência artificial como as redes neurais não só permite estudar a relação que os diferentes fitoquimicos fazem entre eles como estudar a relação com aspetos fisiopatológico da doença ou genéticos do indivíduo.
Por outro lado existe uma vasta gama de estudos científicos a demonstrar os efeitos neurofisiológicos da acupuntura tanto de curto como longo prazo, tanto locais, segmentares como supra-segmentares. Também existem imensos estudos a demonstrar que estes mecanismos neurofisiológicos (especialmente no tratamento da dor), tem relevância clínica.
A osteopatia é outra terapêutica cuja base é puramente cientifica. O seu método de raciocínio fundamenta-se em biomecânica e neurofisiologia. E existem imensos estudos válidos e de boa qualidade a comprovar a eficácia de uma série de técnicas osteopáticas em diversas queixas músculo-esqueléticas.

É verdade que não existe sustentação cientifica, nem evidência de qualidade a suportar as alegações da homeopatia. É verdade que existe uma componente anti-científica em algumas áreas das TNC mas apresentar todas as TNC como movimentos anti-ciência ou movimento que não aceitam ou não beneficiam do método cientifico é simplesmente ignorante. Estas análises superficiais onde a generalização simplista impera facilita o trabalho de humoristas ou comentadores ignorantes e céticos mal intencionados mas dificilmente ajuda a um diálogo honesto sobre a validade cientifica das diferentes TNC.

“Também é errado designar esta por “científica”, dado que muitas das terapêuticas utilizadas nas “complementares” são cientificamente válidas (e muitas das que nós utilizamos na “medicina ocidental” ainda carecem de prova cabal…).”
Mário Cordeiro

O abandono das TNC

“Não é por acaso que em muitos países em que os Estados cederam à pressão pública esteja a haver recuos, com sucessivas retiradas de apoios financeiros … Perceberam que os passos que tinham dado fragilizaram políticas públicas de saúde.”
Daniel Oliveira (2)

Outra bandeira usada por alguns comentadores e céticos está no abandono que muitos países estão a fazer destas áreas. Os exemplos usados costumam referir a Espanha e o Reino Unido onde recentemente se acabou com o financiamento público à homeopatia. Também a França tem visto um forte movimento anti-homeopatia que tem inclusivamente afetado o negócio a empresas importantes como a Boiron. Já repararm que os exemplos são todos focados na homeopatia?
Se é verdade que o Reino Unido está a eliminar o apoio público dado à homeopatia também é verdade que um osteopata ganha tanto ou mais que um fisioterapeuta. No mesmo Reino Unido um fisioterapeuta que saiba acupuntura tem emprego mais facilmente e ganha mais. E o fisioterapeuta que não sabe acupuntura vai aprender esta técnica num curso pago pela entidade patronal.
Nos EUA a osteopatia é um curso equiparado à medicina. O diretor clínico da NASA é um osteopata. E a acupuntura é cada vez mais usada como tratamento de primeira linha em muitos quadros de dor e cada vez mais aconselhada por um conjunto de instituições governamentais e não governamentais.
A homeopatia recebe cada vez mais oposição de muitos setores. Ao mesmo tempo a acupuntura e a osteopatia crescem cada vez mais. O mundo não está abandonar as TNC como um todo. Pelo contrário. O não reconhecimento deste facto leva a análises erradas e muitas vezes centradas no próprio umbigo. O Daniel Oliveira escreve:

“Defendi, por uma questão de segurança, no início deste século, a regulamentação destas terapêuticas. … Mas nunca me passou pela cabeça que elas viessem a ter qualquer tipo de equiparação à medicina. Nem que viessem, na crescente mercantilização da Academia, a ser integradas em pós-graduações de farmácia ou como disciplinas da Ordem dos Médicos. Reconheço que alguns dos passos legislativos que por cá apoiei podem ter contribuído para isto. Talvez tenha sido demasiado otimista quanto aos intentos comerciais deste sector.”(2)

Não. O Daniel Oliveira não contribui-o para nada disto. A Acupuntura e a Osteopatia cresceram dentro e fora de Portugal por causa do valor cientifico e clinico destas terapêuticas. Independentemente da ideologia política do Daniel Oliveira, os centros de tratamento de dor crónica precisam de médicos com conhecimentos de acupuntura. A acupuntura médica já existia antes de qualquer legislação. A fisioterapia invasiva não foi uma invenção do Bloco de Esquerda. Partiu da necessidade dos fisioterapeutas estrangeiros usarem ferramentas mais eficazes para o tratamento de dor. Das melhores equipas de futebol do mundo, às principais associações médicas internacionais ou guidelines nacionais a Osteopatia e a acupuntura são cada vez mais aceites e mais recomendadas!

Soluções

Testosterona ignorante

“É preciso criar uma cultura em que as pessoas terão vergonha de dizer que foram ao homeopata ou que são homeopatas. Chega de cordialidade.”
Vasco Barreto (3)

Creio que esta frase explica bem a razão pela qual o Vasco Barreto é um fâ tão grande do João Cerqueira. Infelizmente para um médico esta abordagem é no mínimo triste. Porque os médicos não deveriam atacar os doentes pelas escolhas que fazem. Informar é diferente de condenar ou obrigar. Com este tipo de abordagens a única coisa que fica afetada é a comunicação entre médico e paciente.
Nas minhas consultas aconselho sempre os pacientes a referirem aos médicos todos os tratamentos que o paciente faz. Muitos não gostam de o fazer porque são atacados pelos médicos. O médico pode não concordar com as escolhas do paciente mas tratar o paciente significa também respeitar essas escolhas. Eu tenho de o fazer, qualquer profissional de saúde tem de o fazer.

Saúde e bem estar: a fronteira necessária

“Os bons médicos não se limitam a tratar a doença com as terapias e substâncias químicas cientificamente destinadas a isso, reconhecem que o bem-estar, a alimentação, o exercício e até o estado de espírito contam para o sucesso das suas terapias”
Daniel Oliveira

“Osteopathy is recognised as a complex intervention involving multiple components (including ´hands-on´ therapy, psychological support, exercise and general health advice designed to support self-management)”
The Institute of Osteopathy (8)

Uma proposta feita no programa pela Diana Barbosa, da Comunidade Cética Portuguesa, e com ecos no artigo de Daniel Oliveira ou no grupo de Facebook do Scimed consiste em classificar estas áreas como bem estar e não como saúde. No fundo são terapias de bem estar.
Como separar então “terapias de bem estar” e “cuidados de saúde”? Pela fundamentação cientifica? Pela validade aprovada pela evidência? Pela % de tratamentos considerados válidos num dada especialidade? Pelos diferentes níveis de evidência existentes em todas as profissões de saúde? Isto vai ajudar a diferenciar médicos de charlatões?

Um ponto referido pela Diana como terapia de bem estar foi os conselhos alimentares dos médicos. Portanto, a nutrição agora vai passar a ser uma “terapia de bem estar” e deixar de ser uma profissão de saúde. Seria então importante referir qual a diferença metodológica usada para diferenciar entre profissões de saúde e “terapias de bem estar”.

Parte parece estar associada à credibilidade cientifica. A homeopatia não tem validade cientifica nenhuma. Mas a osteopatia sim. Então, deveriam ser todas as TNC classificadas como “terapias de bem estar” ou somente algumas? Mas como a Diana Barbosa usou os mesmos pressupostos falsos na origem deste artigo nunca será capaz de quantificar objetivamente o que é ou não “terapia de bem estar”!
Parte dessa diferença parece estar associada à presença de evidência a sustentar a eficácia de uma terapia. Os médicos fazem conselhos para melhorar a qualidade de vida mas ao mesmo tempo aplicam “terapias de bem estar”. Esta parece ser uma diferença razoável mas será quantificável?
Se pegarmos na melhor evidência cientifica para tratamento de lombalgia, por exemplo, a homeopatia seria uma “terapia de bem estar”. Mas a osteopatia seria uma profissão de saúde. E com esta evidência a prescrição de anti-inflamatórios corre o risco de ser considerada “terapia de bem estar”.
50% da prescrição em pediatria é off label, logo sem evidência cientifica. Dita a lógica que 50% dos cuidados pediátricos sejam “terapia de bem estar”? Qual a % dos cuidados de saúde duma especialidade que devem ser aprovados para poder ser considerada “profissão de saúde”? E poderemos definir a fronteira entre estes 2 campos sem levar em linha de conta a importância dos diferentes níveis de evidência inerentes a todas as áreas de saúde?
Existe uma diferença muito grande na qualidade da evidência em diferentes especialidades médicas. Compare-se a oncologia com a medicina física e de reabilitação. São ambas profissões de saúde mas se formos considerar o tipo de evidência em que cada uma se baseia se calhar a medicina física e de reabilitação passava rapidamente para “terapia de bem estar”. Podemos ter 2 medicinas? Uma para tratar e outra para dar “bem estar”? O que diria a Ordem dos Médicos?

A Diana Barbosa pega num ponto importante. A homeopatia que não faz nada é oficialmente uma profissão de saúde mas o exercício físico que é muito mais importante para a saúde humana não é profissão de saúde. Mas parte de pressupostos errados e não tem forma de qualificar ou quantificar objetivamente o que seriam “cuidados de saúde” e “cuidados de bem estar”.

A autoridade em democracias com tecnologias disruptivas

O ataque à democracia

“A ideia justa de que todos temos direito a uma opinião transformou-se na ideia destrutiva de qualquer possibilidade de vivermos em comunidade de que todos temos direito a uma verdade.”
Daniel Oliveira

“… Pelo contrário, a confiança cega na tradição e no testemunho, em que se baseia o pensamento pré-científico, é típica de sociedades menos predispostas à democracia.”
Daniel Oliveira

Uma ideia muito explorada por diversos comentadores está relacionado com aquilo que é percebido como um ataque à autoridade e à democracia. Mesmo que muitas vezes mal explorado existe fundamentação para este tipo de críticas. E algumas TNC não ficam bem vistas.
O Daniel Oliveira tocou em parte do problema: as redes sociais. O problema exato não são as redes sociais mas o surgimento de tecnologias disruptivas que alteram a forma como comunicamos ou absorvemos as notícias e que define novas dinâmicas entre os diferentes grupos de poder.
O problema de base não é a falta de autoridade cientifica. Sempre existiram conflitos entre ciência e crenças: criacionistas bíblicos não são uma invenção dos nossos dias, conflitos entre medicina e religião (vacinação, uso de preservativo no início do século XX para combater a sífilis e no final para combater a SIDA), conflitos entre ciências sociais e exatas (o pós-modernismo é mais velho que o Zuckerberg!), etc…

O problema das tecnologias disruptivas como as providenciadas pelo Facebook ou pelo Google é que obrigam a definir novas estratégias neste tipo de confrontos ideológicos. Investigação recente mostrou que o Youtube foi importante para disseminar a ideia que a terra é plana (7). O youtube também ajudou muitos alunos a passarem cadeiras de matemática no técnico. A tecnologia vale pelo uso que lhe damos e ajuda a definir a sociedade pela velocidade com que esta se adapta à nova tecnologia.

Não está em causa a autoridade cientifica mas a forma como essa autoridade se pode defender num mundo com um nível de inovação tecnológica desnivelada da evolução social.
Um sistema social de autoridade médica já não se adequa a um mundo onde qualquer pessoa pode ter acesso ao mesmo nível de informação. Não é a autoridade médica que manda mas a capacidade do médico em comunicar todos os prós e contras a um doente com excesso de informação. (Ou então podem tentar a abordagem do médico Vasco Barreto!)
Um sistema de ensino baseado na autoridade das matérias ensinadas pelo professor não é válido numa sociedade onde eu posso escolher a autoridade de acordo com as minhas crenças. Quem me define a autoridade depois de sair da escola? Os alunos não precisam de saber que a evolução está correta, eles precisam perceber porque é que a evolução está correta. Eles precisam saber usar a lógica para se defender de argumentos que pretendem somente enganar.
A nossa sociedade está num momento de transformação. Como muitos defendem o analfabetismo já não consiste em não saber escrever mas sim em distinguir a qualidade da informação que recebe. As escolas ensinam-nos em saber escrever mas não nos ensinam a distinguir informação verdadeira da falsa nem a pensar ou pesquisar.

As tecnologias eliminaram os filtros existentes na comunicação social. Nos anos 90 o maior genocídio pós 2ª guerra mundial (Ruanda) quase não foi falado na comunicação social por conveniência política. Em 2019 um radical de extrema direita entra numa mesquita com uma arma automática, mata dezenas de pessoas e transmite tudo em tempo real. Antes que alguêm ou alguma instituição pudesse fazer algo o filme tinha viralizado.
Estas tecnologias também diluiram a fronteira entre uma opinião pessoal e a profissional, entre uma explicação baseada em linguagem técnica ou um debate de argumentos mais brejeiro. Um exemplo recente da realidade portuguesa é o médico João Júlio Cerqueira e a forma como a “divulgação cientifica” se confunde com ofensas e conversas brejeiras no Facebook. Onde já se viu na história da Medicina Portuguesa um representante da Ordem dos Médicos, ir às redes sociais mandar as pessoas F*$%&”)/-#$ porque acharam a prestação dele ofensiva num programa de televisão?

Antes ir à televisão era o ponto alto da carreira de alguêm. Agora é só uma adenda para fortalecer a sua presença nas redes sociais. Antes algum representante da Ordem dos Médicos apresentava uma determinada imagem pública e guardava as suas opiniões mais vulgares para um núcleo reduzido. Hoje a apresentação pública serve somente para fortalecer a imagem dominante das redes sociais.

Muitos terapeutas (eu incluido) pensaram que o programa Prós e Contras estava feito para sermos publicamente humilhados. As TNC com mais validade cientifica não estavam representadas. Os terapeutas com melhores conhecimentos cientifícos quase não tiveram voz (viva os 4 minutos que deram ao Alexandre Nunes). No entanto o programa acabou por ser uma vitória. Não foi uma vitória cientifica mas sim social. E deveu-se acima de tudo à incompetência argumentativa, às ofensas, à postura arrogante e à incapacidade de construção de um diálogo construtivo de um bioquímico e um médico.

Um ataque à democracia não significa um ataque à autoridade e um ataque à autoridade não significa um ataque à democracia. Mas se houve um momento em que o ataque à autoridade e à democracia coincidiram, esse momento envolveu os ataques anti-vacinação apoiados por muitos homeopatas e naturopatas.
Na realidade fica difícil distinguir o discurso público de muitos naturopatas e dos bots russos (6) usados para espalhar desinformação e prejudicar as democracias ocidentais. Desde trols, bots avançados ou poluidores de conteúdo, os dirigentes russos tem feito tudo para enfraquecer o discurso público nas democracias ocidentais ou atacar o próprio processo democrático.
O apoio dado a movimento anti-vacinação seja através da publicação de informações anti-vacinação (trols) ou uso de argumentos a favor e contra para aumentar a dúvida (bots) tem sido atentamente seguido e apoiado por naturopatas cujo conhecimento ou experiência em saúde pública é nulo. Os serviços secretos russos tem um nome para estas pessoas: “idiotas úteis”.

Vamos lá falar de autoridade

“Nulius in verba” (Não aceites a palavra de ninguêm)
Moto da Royal Society

“It is an expression of the determination of Fellows to withstand the domination of authority and to verify all statements by an appeal to facts determined by experiment.”
Royal Society

“These are dangerous times. Never have so many people had access to so much knowledge, and yet been so resistant to learning anything.”
Tom Nichols, The Death of Expertise

Até certo ponto este argumento da desrespeito pela autoridade é um falso argumento e mostra uma resposta infantil e imatura por parte de muitos céticos. Quando foi a altura em que a autoridade não foi contestada? Os primeiros cristãos contestaram a autoridade dos escritos pagãos. Instituíram as escrituras sagradas como autoridade que mais tarde foi contestada por cientistas como Galileu, Newton, Copérnico, etc… E desde quando é que a autoridade não foi contestada dentro e fora da ciência?
A forma como a autoridade se defendia mudou. De perseguir e matar opositores ideológicos passou a ser discutida mais civilizadamente em papeis cientifícos, jornais, jornadas cientificas, etc… Em vez de se queimarem livros passou a ter-se direito de resposta. De espetáculos/julgamentos/perseguições públicos passámos para encontros para uma elite cientifica debater os problemas. Os cientistas deixaram de cortar os narizes uns aos outros para ver quem era o melhor matemático. A autoridade passou da ponta da espada para a ponta da caneta.
O problema hoje em dia? A ponta da caneta não escreve no Youtube! O problema dos céticos e comentadores que repetem este argumento ad nauseum? Pretendem obrigar a caneta a escrever no Youtube com a acutilância da ponta da espada. E já repararam que as primeiras pessoas a acusarem os outros de usar a falácia da autoridade são também as primeiras a usarem o argumento da autoridade?

Mas existe uma crise de autoridade. As razões para a mesma são estudadas e comentadas em livros e sites. Algumas foram faladas nas linhas acima. Mas a sociedade também é obrigada a repensar a autoridade e a forma como esta se apresenta. O desenvolvimento da sociedade, hoje em dia obriga a perguntar: Quem é a autoridade? Num mundo onde existem diversas profissões de saúde autónomas e em constante evolução qual delas é a autoridade final? Antes o médico era a autoridade final. Agora o fisioterapeuta, o acupuntor, osteopata, podólogo, enfermeiro, naturopata, terapeuta ocupacional, etc… tem mais ou menos graus de autonomia para discordar do médico.
Numa sociedade com bastante informação disponível e com meios de comunicação quase ilimitados (youtube, facebook, instagram, whatsaap, messenger, sites, foruns, emails, snapchat, etc…) como vamos diferenciar a informação verdadeira da falsa? A informação manipulada daquela que pretende ser objetiva? No meio de tantas pessoas cultas, cada uma com as suas particularidades e conjunto de crenças onde vamos definir a fronteira entre o verdadeiro e o falso? Onde está a fronteira entre a opinião de uma pessoa culta e humilde de um ressabiado egocêntrico? Numa sociedade com profissionais extremamente competentes e incompetentes e leigos com uma vasta cultura geral ou nenhuma quem define a autoridade?
Que autoridade tem a Diana Barbosa para definir o que são “cuidados de saúde” ou “terapias de bem estar”? Que autoridade tem os naturopatas para fazer afirmações contra a vacinação? Que autoridade tem o David Marçal para falar dos problemas de investigação em terapias manuais? Que autoridade tem os homeopatas para defender irracionalidades como água com memória? Que autoridade tem o João Cerqueira para definir o que é ou não acupuntura verdadeira? Para definir que técnicas é que são ou não acupuntura? Que autoridade tenho eu para escrever este artigo? Ou para o Daniel Oliveira escrever sobre TNC, democracia e redes sociais?
E que autoridade devemos nós seguir? Os médicos? E nos médicos devo seguir a autoridade que me fala em trabalho conjunto (Mário Cordeiro) ou em humilhar publicamente pessoas que recorrem ou fazem TNC (Vasco Barreto)? Devo seguir aquelas que dizem que a acupuntura é uma fraude (João Cerqueira) ou aqueles que dizem que está comprovada cientificamente (Tiago Pacheco) (10)?
Devo seguir o cético Ernst Edzard que afirma que a acupuntura não é mais que um placebo ou a Joint Comission dos EUA que considera a acupuntura um tratamento de primeira linha? Devo seguir sites como Science Based Medicine que não aceita a acupuntura (11) ou seguir sites como o Harvard Health Publishing que defende a eficácia da acupuntura (12)?

Uma boa parte da crise de autoridade vem da falta de humildade que temos ao deparar-nos com a quantidade de informação que nos é disponibilizada. Nesse sentido é uma crise existencial. Ultrapassá-la sozinhos ou em conjunto depende de cada um. Eu pessoalmente não tenho resposta para muitos dos problemas com que me deparo ao estudar este problema.

Existe uma crise de autoridade. Está relacionado com ataques diretos à autoridade, à incapacidade de algumas pessoas com autoridade saberem comunicar essa autoridade e à facilidade com que nos impomos com autoridade. Também existe uma evolução na sociedade que nos faz questionar e definir quem é ou o que é a autoridade.

Conclusão

“Quando isso finalmente acontecer, integrando-se terapêuticas não científicas nas faculdades de medicina e nas ordens profissionais, a guerra pelo progresso, que se baseou na aceitação generalizada do pensamento científico, estará definitivamente perdida. E, com ela, a civilização que permitiu a construção de sociedades democráticas organizadas em torno da razão.”
Daniel Oliveira

Não Daniel Oliveira. As Terapêuticas Não Convencionais não vão acabar com a democracia. A homeopatia (a mais irracional de todas as TNC) foi inventada na Alemanha há 200 anos. Imensos médicos fazem homeopatia na Alemanha e na França é aceite por outros tantos médicos mas não é por isso que estes países são cientificamente atrasados ou sofreram retrocessos civilizacionais. A Coreia do Sul sempre aceitou formas de acupuntura e tratamentos tradicionais e tornou-se uma democracia vibrante. A acupuntura é extensamente usada no Japão democrático. E o que dizer da medicina Ayurvédica na Índia? Atrasou o processo democrático? Não há relato de nenhuma democracia que se tenha perdido porque adotou Terapêuticas Não Convencionais.
Podemos dizer que os ingleses gastaram dinheiro público desnecessariamente em tratamentos homeopáticos. Esse dinheiro poderia ter sido importante para salvar vidas e fazer algo realmente útil. Mas dificilmente isso provocou um retrocesso civilizacional.
O que prejudica a democracia é a manipulação mal intencionada de argumentos. É a análise superficial que leva a categorizações simplistas e ao preconceito. É a falta de diálogo construtivo. É a falta de humildade e a cegueira ideológica que nos impede de procurar pontos comuns que possam servir de ponto de partida numa discussão civilizada.
É a nossa capacidade de criar identidades comuns e dialogar construtivamente usando essas identidades que garante a sobrevivênia de uma democracia pluralista.
Hoje todos nós olhamos para o mundo como se tivessemos uma bola de cristal que torna a nossa opinião superior a todos os outros. Talvez, na realidade, estejamos presos dentro da nossa bola de cristal incapazes de olhar o mundo.

Bibliografia

(1) https://www.dn.pt/edicao-do-dia/06-abr-2019/interior/proximo-debate-televisivo-sera-que-e-o-sol-que-anda-a-volta-da-terra-10766058.html?fbclid=IwAR0GyamAE2JoCFirpkbfipzcY0Y26fvXy57sCmIoVDfFLu8RbGfRXjM-OTk
(2) https://leitor.expresso.pt/diario/segunda-25/html/caderno1/opiniao/a-ciencia-que-seja-humilde-e-deixe-o-mercado-funcionar?fbclid=IwAR2piHE_sXOpU2uNTfeYQz8aWbkyfI_L4YgFRFqjeNGhTkUq5unkUiYzboY
(3) https://www.publico.pt/2019/04/05/ciencia/opiniao/parar-charlatanice-sao-medicinas-alternativas-1868143?fbclid=IwAR0EYJpU_n2kRv3GovS_AQyMZVJmFE4DlleteZoN90GKc8ZYbbLrmw_U0xU
(4) https://observador.pt/opiniao/homeopataratas/?fbclid=IwAR3kIX89Wq5oqxFyhWtbs_2w0lUJkF9cuxBEJ6ghaOyu_aX7MQTw7IyrnLA
(5) http://cmdss2011.org/site/wp-content/uploads/2011/07/Declara%C3%A7%C3%A3o-Alma-Ata.pdf
(6) https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6137759/
(7) https://www.bbc.com/news/technology-47279253
(8) https://www.iosteopathy.org/wp-content/uploads/2018/09/Quality-in-Osteopathic-Practice-180910.pdf?fbclid=IwAR1wEBJZvom5ESn20UZWs5lNom9KHy6XTd85kgUzsI0DfDPlHPf269NI4bg
(9) https://www.publico.pt/2013/05/02/sociedade/opiniao/medicinas-alternativas-ou-complementares-1593106
(10) https://observador.pt/opiniao/o-debate-das-medicinas-alternativas/?fbclid=IwAR0x9xBHrXwgaGKUqZfnSzzP9ivBAkMriBJ9vXTGabKzJzpqV78sEghMzqw
(11) https://sciencebasedmedicine.org/reference/acupuncture/
(12) https://www.health.harvard.edu/alternative-and-complementary-medicine/acupuncture-for-pain-relief