Reformas na medicina: pensamentos de um não médico

Não tenho por hábito escrever sobre Medicina. Prefiro escrever sobre acupuntura e sobre os problemas que a classe dos acupuntores enfrenta do que escrever sobre os problemas de outras profissões. No entanto gostava de partilhar algumas reflexões que tenho feito em privado (com os meus inúmeros amigos imaginários) sobre algumas reformas na medicina que acho necessárias para a profissão médica. Estas reformas na medicina tanto podem ser necessárias como podem ser uma simples má leitura minha. Eu não sou médico e não tenho experiência clinica como médico. Os meus exemplos passam da minha experiência como doente ou profissional de saúde que em determinados momentos trabalhou muito próximo à classe médica e noutros completamente oposto.
A minha experiência vale o que vale e o objetivo do artigo não é ser ofensivo para uma classe profissional mas tão somente gerar uma reflexão sobre a prática da medicina.

Reformas na medicina: Abordagem mais humana

Recentemente um paciente consultou a médica de família para lhe pedir umas análises que uma nutricionista tinha prescrito. Explicou que se ela passasse essas análises ficariam muito mais baratas e como eram úteis para um check up dos recentemente adquiridos 50 anos não deveria ter nenhum problema legal ou moral em prescrever essas análises.
A ousadia. Uma nutricionista a prescrever exames. Um doente a pedir exames desses à sua médica. Entre o constante desconforto, ao discurso paternalista até à ofensa pública de estar prescrever exames que não foram pensados por ela, não houve um único momento de criação de empatia entre médico e doente (pelo menos da perspetiva do doente que me contou a história).
É uma constante ter doentes a referirem uma incapacidade grande de se sentirem ouvidos ou compreendidos pelo seu médico. As aptidões sociais e emocionais de imensos médicos são claramanete insuficientes para o exercício da profissão.
A seleção pelas universidades de alunos com claras capacidades cognitivas muito evoluídas e completo desprezo pelas suas capacidades emocionais e sociais é responsável por parte deste cenário.
Outros fatores contribuem para que o médico sinta dificuldades acrescidas em criar uma relação empática com o doente. As Dras. Silvia Camões e Ana Ramos, internas da formação Específica de Medicina Geral e Familiar abordaram muitos destes fatores ao referirem “a relação de confiança pretendida e idealizada é difícil, com inúmeras dificuldades no seu estabelecimento… os alicerces estão a desvanecer, muitas instalações estão a deteriorar-se e os profissionais de saúde estão cada vez mais desmotivados… elevado número de pacientes inscritos em cada lista médica, agudizado pela falta de condições das instalações e por uma pressão crescente para que os médicos efetuem as consultas em menos tempo, torna-se muito difícil estabelecer a tal relação de confiança mútua.”(1)
Sem querer tirar valor aos fatores referidos pelas médicas internas e com os quais concordo nunca vejo nestes artigos nenhuma auto-crítica à forma de estar e pensar a medicina. A culpa é sempre dos outros. No entanto a minha experiência como profissional de saúde que já trabalhou de perto com muitos médicos e que recebe pacientes em prática clinica privada numa área que nem sempre é consensual a ideia com que fico é que este fator é de extrema relevância.
Creio que a mentalidade dos médicos neste aspeto está a mudar pois os médicos mais novos costumam ser mais acessíveis. A forma como essa mentalidade nova se vai adaptar ao status quo cultural existente ou como vai mudar esse status quo só poderá ser respondido no futuro.

Reformas na medicina: Menos doenças e mais doentes

A categorização das doenças é importante, a definição de protocolos de intervenção junto dessas doenças também. Mas enquanto a medicina se resumir a isto ela está a limitar a sua eficácia. Porque quanto mais categorizamos doenças menos capacidade temos para ver todas as particularidades do paciente que podem influenciar o nosso diagnóstico ou a forma como deve ser entregue a terapêutica.
O síndrome do túnel cárpico é disso um claro exemplo. Quantos pacientes foram operados ao túnel cárpico e continuaram com dor? O diagnóstico de síndrome de túnel cárpico é feito com base em sintomas (dormência, dor), testes (Phallen e Tinel por exemplo) e estudos (eletromiografia) o que supostamente seria suficiente para justificar uma intervenção invasiva como a cirurgia.
Mas os sintomas, testes clinicos ou exames complementares de diagnóstico não são exclusivos daquela condição. Por isso muitos pacientes são operados sem sucesso. O diagnóstico do túnel cárpico pode ser relevante mas não devia ser feito isoladamente. Em vez da doença deveríamos pensar nas diferentes interfaces anatómicas que interagem com o nervo e que podem provocar aqueles sintomas. Uma análsie neuro-fisiológica e biomecânica completa às diferentes interfaces anatómicas independente da categorização de alguns sintomas em doenças.
Pode-se argumentar que para isso é necessário mais testes (desfiladeiro torácico por exemplo) ou exames (RX à cervical por exemplo) e que a Medicina tem esses testes. Não entro em desacordo neste ponto. A minha questão é que a abordagem médica falha porque os testes e exames estão pensados numa categorização de doenças e não nas particularidades anatómicas do paciente com as suas contraturas musculares, limitações articulares ou alterações dos padrões de respiração. Por isso os testes e exames são pensados unicamente em termos de se comprovar a existência de determinada doença e aplicar um tratamento protocolado.

Reformas na medicina: Pensar no curto prazo

Muitas das estratégias médicas são pensadas para o imediato sendo que no longo prazo se tornam contrapruducentes. Parece que de alguma forma a estratégia das farmacêuticas de manterem os doentes doentes, conseguiu passar para a prática médica sem ninguêm se aperceber.
A forma como muitos médicos se vêm na sociedade, como pensam o seu trabalho, e a dependência da indústria farmacêutica parecem ser os principais responsáveis por este estado de situação.
Alguns exemplos são flagrantes: pacientes com dor nos joelhos por artrite reumatóide são tratadas com corticosteróides. A dor alivia. Mas juntamente com esse alívio vem mais 30 ou 40 kilos de peso. Qual o impacto de mais 30 ou 40 kilos de peso nos joelhos de uma paciente com artrite reumatóide? Esse peso perde-se facilmente? Que consequência terá o aumento desse peso com o avançar da idade no alívio dos sintomas de uma doença degenerativa?
Quantos anti-inflamatórios são prescritos sem necessidade? Os anti-inflamatórios produzem efeitos secundários graves, maioritariamente no estômago. Ou seja é preciso prescrever outro medicamento (omeprazol) para diminuir os efeitos secundários dos anti-inflamatórios no estômago. Mas o omeprazol tomado em longa duração provoca demência de acordo com alguns estudos. And so on… Quantos doentes tomam anti-inflamatórios no longo prazo para tratar dores que são de origem estrutural? Terá lógica usar uma abordagem bio-química (anti-inflamatório) de curto prazo em detrimento de uma abordagem estrutural (mistura de fisiologia de exercício, osteopatia, acupuntura, fisioterapia) de longo prazo?

Reformas na saúde: A arrogância histórica

Outro dos pontos que se observa a necessidade de uma reforma na medicina tem a ver com a forma como os médicos comunicam, ou não, com outras profissões. Histórica e atualmente a medicina é a profissão de saúde reinante. Profissões como enfermagem ou fisioterapia surgem da necessidade de haver alguêm que consiga acompanhar o médico ou substitui-lo em funções que este não deseja fazer (muitos técnicos de saúde tem funções que foram relegadas para segundo plano pelos médicos, especialmente funções associadas à proximidade com o paciente).
No entanto, atualmente, surgem uma série de profissões novas que são autónomas e outras mais antigas que buscam uma autonomia maior. Os fisioterapeutas já podem ter um consultório próprio sem um médico como responsável clínico, os enfermeiros tem ganho alguma autonomia com avaliação própria e ganho de novas aquisições, os osteopatas e acupuntores são uma profissão recente com autonomia garantida pela Lei, muitos cursos politécnicos desenvolveram-se tanto que começaram a lutar por maior autonomia, a fazer mestrados e doutoramentos e a conseguir desenvolver investigação científica.
No entanto a resposta da comunidade médica não tem sido de procurar adaptar-se a esta situação mas sim de tentar manter os previlégios do passado. Em vez de tentar dialogar de forma construtiva com estas profissões de saúde tenta impôr o seu ponto de vista pelo poder social e institucional da sua classe.
A recente polémica com o ato de saúde é disso um exemplo claro. Apesar de ter sido aprovado pelas Ordens de Saúde foi rejeitado pela Conselho Nacional da Ordem dos Médicos, “por não referenciar, por exemplo, que a coordenação de equipas multidisciplinares deve competir aos médicos…”(2) sendo ainda afirmado “Esta lei tem que servir para proteger os doentes de usurpação de funções, publicidade enganosa, más práticas, etc.” e “para separar a atividade de profissões autorreguladas das que são reguladas diretamente pelo Estado e de “terapêuticas” que não tem validade científica como as TNC… sob proposta do bastonário, Miguel Guimarães, tendo este órgão colegial da Ordem dos Médicos, numa votação histórica, aprovado uma moção de “apoio ao Conselho Nacional na defesa intransigente do Ato em Saúde em respeito pela clarificação dos atos próprios de cada profissão e pela coordenação médica das equipas multidisciplinares””(2).

Por um lado existe a necessidade de tentar defender as competências médicas da intrusão cada vez mais evidente de outras áreas (algo que já falei noutros artigos) e por outro existe um alheamento completo às novas dinâmicas sociais e a tentativa de manutenção de um status quo que permite ter poder sobre todas as outras profissões e definir as ações e limitações técnicas das outras profissões.

Conclusão sobre reformas na saúde

Este artigo resulta da minha opinião formada pelo contacto com doentes e médicos. No entanto, não sou médico. Existem particularidades da profissão no dia a dia que eu não conheço. Por outro lado a maioria dos pacientes que se sentem felizes com o seu médico e que foram rapidamente tratados pela Medicina não precisam vir fazer acupuntura e osteopatia, pelo que a minha opinião estará a ser enviesada por doentes que se consultaram com maus médicos.
Independentemente dos bias que a minha opinião possa ter, creio ter conseguido pegar nos pontos que acho essenciais serem discutidos. E o leitor o que acha?

FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA O ARTIGO REFORMAS NA SAÚDE

(1) Camões, Silvia. Ramos, Ana. Relação médico-paciente distinguir a doença do doente. Revista ordem dos médicos Nº180 Junho 2017. pág. 71-72
(2) Medir Barreiras, definir soluções. Revista ordem dos médicos Nº180 Junho 2017. pág. 31

By |2017-12-30T13:08:35+00:00Julho 14th, 2017|Comunicação em saúde, Reflexões|0 Comments

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O terapeuta Nuno Lemos e Raquel Marçal são os responsáveis pelos diferentes gabinetes da clinica de acupuntura. A nossa formação é baseada em acupuntura e osteopatia.

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