Futuro da farmacoterapia

A farmacoterapia baseia-se no uso de determinados princípios ativos para tratar doenças ou aliviar sintomas. A forma mais básica de farmacoterapia será a alimentação. Uma forma um pouco mais desenvolvida está relacionada com o uso de plantas medicinais e alterações alimentares de acordo com esses sintomas.
Sabe-se hoje que os chimpanzés alteram a sua alimentação e procuram o uso de plantas medicinais de acordo com alguns sintomas presentes. (1) Notou-se que na presença de vermes intestinais os chimpanzés aumentavam o consumo de folhas especificas. (2) Estudos posteriores mostraram que 3 espécies dessas folhas possuem efeitos medicinais relevantes (3).
Tal como outros primatas, o ser humano também começou a observar a relação entre o consumo de determinados alimentos e o alívio de alguns sintomas. Por vezes nos humanos e outras vezes nos animais.
Uma planta tradicional chinesa usada para tratar disfunção erétil é chamada “erva de bode excitado”. Foi descoberta porque os pastores notaram que os bodes ficavam sexualmente mais ativos em algumas pastagens (9).
Mas ao contrário dos outros primatas o ser humano foi o único macaco superior a desenvolver culturas complexas, escrita e revoluções científicas.
A cultura permitiu definir moldes filosóficos para explicar as funções das plantas medicinais, a passagem oral de conhecimentos e, mais tarde a escrita, permitiram catalogar vastas quantidades de informação que são impensáveis para qualquer chimpanzé do Uganda.

A Tecnologia na base das divisões sócio-históricas

A revolução científica e tecnológica permitiu-nos estudar algumas plantas medicinais e compreender quais os princípios ativos responsáveis pelos seus efeitos clínicos. Os avanços tecnológicos permitram trocar a raiz do salgueiro pela aspirina.
O sucesso dos medicamentos iniciais (a aspirina ainda hoje é usada) fez com que se desenvolvesse toda uma indústria farmacêutica e fez com que a classe de saúde dominante se focasse principalmente nesses medicamentos. O medicamento era o futuro. As plantas medicinais eram história, o reflexo de uma cultura cientificamente atrasada.
No entanto, a partir dos anos 90 o desenvolvimento de novas técnicas laboratoriais, estudo de mecanismos celulares e vias de sinalização celular fez com que houvesse um ressurgimento do interesse na investigação científica das farmacopeias tradicionais.
Uma série de fatores técnicos (excesso de efeitos secundários, cultura médica muito propensa a prescrever medicamentos e muito dependente dos mesmos), fatores históricos (escandalos associados a efeitos dos medicamentos), culturais (iliteracia científica, maior informação, suspeita relativamente às farmacêuticas), ideológicos (desejo de aproximação da natureza, uso de novas modalidades terapêuticas), e inovação (desenvolvimento científico, novas técnicas laboratoriais, novas modalidades terapêuticas) fez com que as farmacopeias tradicionais começassem a ganhar mais respeito e se tornassem novamente uma ferramenta clinica desejada pelos doentes e explorada pelos investigadores.
No início do século XXI a nossa sociedade está na beira de sofrer grandes evoluções cientificas e tecnológicas face a inovações que tem vindo a surgir e que irão alterar o nosso mundo radicalmente nos próximos 50 anos. Robots inteligentes, carros que se conduzem sozinhos e imortalidade já não são apenas ideias de ficção científica. São dados adquiridos e que estão somente dependentes de tempo para se tornarem vulgares.
Surgem então algumas questões: qual o impacto que estas inovações terão nas farmacopeias tradicionais? Vamos continuar a usar medicamentos? A farmacoterapia está acabada ou tem algum futuro mesmo que marginal?
Eu acho que a farmacoterapia vai revolucionar-se nos próximos anos. Nas próximas linhas preocupo-me em explicar como algumas inovações científicas importantes poderão mudar radicalmente a forma como vamos encarar os medicamentos e os fitoterápicos.

Tecnologias que vão definir o futuro da farmacoterapia

Inteligência Artificial e bioinformática

futuro da farmacoterapia IA
Atualmente todos falam em Inteligência Artificial (IA). Na maioria das vezes as previsões são terríveis. Os computadores vão conquistar-nos e destruir-nos. Ninguêm pensa que computadores mais inteligentes nos vão facilitar a vida e ajudar a ficar mais inteligentes. Até agora é o que tem feito.
O uso de IA e bioinformática permite-nos compilar e estudar grandes dados permitindo compreender padrões que antes passavam despercebidos. A bioinformática tem sido usada no estudo dos fitoquímicos e nos seus mecanismos fisiológicos.
É possível compreender como funcionam as combinações dos diferentes fitoquímicos numa fórmula tradicional,(5) perceber quais são os mais importantes e aqueles que não servem para nada e pensar em novas combinações que antes eram impossíveis fazer (6).
A bioinformática está a ser usada para estudar possíveis chaves bioquímicas que explicam a diferenciação de drogas nas farmacopeias tradicionais (4) e que poderão ajudar a perceber melhor fenómenos fisiopatológicos especificos assim como criar novos bioterapêuticos.
A IA e bioinformática não vão permitir apenar monitorizar a nossa saúde e avisar-nos de quando surge um problema. Essas tecnologias vão ser aplicadas a escalas sociais permitindo a maior experiência de engenharia social já vista. Isto irá ter repercussões gigantes na forma como lidamos com a nossa saúde. Comportamentos nocivos serão penalizados ao mesmo tempo que comportamentos corretos receberão recompensas. A utopia da prevenção (evitar comportamentos de risco, promover comportamentos corretos, otimizar níveis de saúde, alertar para situações de risco de forma imediata e propor soluções) está ao virar da esquina.

Edição genética

futuro da farmacoterapia edição genética
Primeiro apareceu a terapia genética. Depois surgiu a edição genética. Uma forma avançada de poder inserir, apagar, modificar ou substituir partes do DNA no genoma humano.  Para isso usam um tipo de “tesouras moleculares” que tem vindo a desenvolver-se rapidamente. Primeiro surgiram as nucleases, depois as ZFN, depois a TALEN e depois a CRISPR que se tornou a mais conhecida. (8) E enquanto a CRISPR revoluciona o mercado surgem notícias de um novo modelo, MAJESTIC, que permite fazer alterações a milhões de células ao mesmo tempo. (7)
O objetivo das empresas de edição genética passa por curar doenças raras para as quais não existe nenhuma solução válida. No entanto é uma questão de tempo até se começarem a usar para tudo e mais alguma coisa, especialmente para otimização de parâmetros essenciais (inteligência, saúde, força, etc…) e prolongamento do tempo de vida.
Vamos poder alterar facilmente o perfil genético de muitas espécies aumentando o seu potencial nutritivo: plantas mais ricas em determinados fitoquímicos, tipos de arroz com menos indíces glicémicos, etc…
No futuro, ao mesmo tempo que editamos os genes de muitos alimentos para diminuir os indíces glicémicos dos mesmos também editamos os genes do ser humano para se tornar menos suscetível a doenças como diabetes.

Engenharia enzimática

Modelação de proteínas e enzimas de forma a tornarem-se mais baratos e biologicamente mais eficazes. Novas pataformas tecnológicas conseguem produzir enzimas de alta performance que podem criar grandes impactos na produção de novos medicamentos (diminuindo custos), criação de bioterapêuticos mais eficazes ou alimentos com maior qualidade.
A Codexis é uma empresa recente que faz exatamente isso tudo (10). De acordo com esta empresa a eficiência e especificidade de enzimas otimizadas permitem diminuir custos de produção alimentar e reduzir o impacto ambiental da produção alimentar de larga escala.
Esta tecnologia não só vai melhorar a qualidade dos alimentos que comemos, diminuir o custo de produção de medicamentos, ajudar a preservar o ambiente mas também vai melhorar a qualidade de suplementos e ajudar na criação de melhores fórmulas combinando a engenharia enzimática na otimização de determinados princípios ativos com bioinformática e IA.
As fórmulas do futuro vão ser feitas a partir de combinações de princípios ativos específicos manipulados para se combinarem melhor e obterem melhores resultados clínicos.

Tecnologia de cultivo avançada

Quem tem instagram devia seguir algumas contas como futurism, futurismenergy e grupos parecidos. Nestes grupos podemos ver imensas inovações que estão a ser feitas todos os dias e que muitos pensam tratar-se de ficção científica.
Robots para melhorar a eficácia de cultivo em hortas caseiras, controlando com exatidão o tempo de regas, estudando o solo e a própria evolução da planta a ser cultivada. Pequenas estufas caseiras onde sistemas de Inteligência Artificial controlam o tempo e a intensidade de luz a que a planta é sujeita, assim como sistema de rega, etc… conseguindo diminuir as variáveis que podem prejudicar o crescimento de uma planta de cultivo.
No futuro vai ser possível associar sistemas de IA com sistemas de cultivo avançadas para cultivar alimentos que foram sujeitos a edição genética para serem mais nutritivos por exemplo.
É possível comprar sementes de plantas geneticamente modificadas, cultivá-las em casa de forma rápida e barata e consumi-las de forma a satisfazer necessidades especificas do corpo. Se tiver uma casa com um bom jardim vai poder usar robots que garantem as melhores condições de cultivo possíveis.

Nanotecnologia para todos

A curcumina está na berra. Qualquer suplemento para o desporto usa curcumina. Está mal das articulações? A curcumina pode ajudar. Na realidade a curcumina tem uma biodisponibilidade terrível. Por isso a maior parte é expelida do corpo antes de ser aproveitada. Na maioria dos casos o pouco que chega às articulações provavelmente não consegue produzir alterações que justifiquem o seu uso.
Como a sua biodisponibilidade é muito fraca a maioria das suas ações podem observar-se mais a nível intestinal. A curcumina foi descoberta porque povos que comem caril frequentemente tem taxas de cancro do intestino mais baixas e não porque tem articulações mais saudáveis.
No entanto, usando sistemas de nanotransporte é possível melhorar muito a biodisponibilidade da curcumina. O que vale para a curcumina vale para qualquer fitoquímico. Ou conjunto de fitoquímicos.
Os sistemas de nanotransporte são caros e estão em fases iniciais de desenvolvimento (11). Mas com o desenvolvimento tecnológico estes sistemas de nanotransporte vão ficar cada vez mais baratos sendo possíveis usá-los em larga escala a preços acessíveis.
Outros estudos estão a desenvolver nanopartículas que vão circular no sangue a absorver toxinas. Esta ação pode ajudar a diminuir os efeitos de algumas toxinas presentes nos fitoterápicos ou criar ações sinérgicas com os mesmos.
No futuro alguns fitoquímicos serão provenientes de plantas geneticamente modificadas, outros serão produzidos em laboratório, purificados e otimizados para melhorar a sua biodisponibilidade e eficácia clínica. Vão usar sistemas de nanotransporte garantindo uma biodisponibilidade ainda maior. As nanopartículas vão permitir que a curcumina possa realmente ser válida na prevenção de sintomas articulares. 

Prevenção daqui a uns aninhos…

futuro da farmacoterapia medicamento
O seu médico de família vai ser substituído por uma pulseira siliconada (ou uma qualquer espécie de segunda pele parcial – alguns sistemas vão analisar a sua saúde à distância) (15). Esta segunda pele (e não só) vai ser um dos instrumentos usados para fazer análises imediatas do seu perfil genético e bioquímico que indica necessidades nutricionais, avaliação de stress ou surgimento de mutações celulares com potencial cancerígeno, entre outros.
Esses dados vão ser enviados para sistemas de cloud computing onde algoritmos de IA e técnicas de bioinformática (12) vão analisar e definir quais as carências que aquela pessoa tem e de acordo com isso definir alimentos e “fitomedicamentos” ou “bioterapêuticos”, alterações de estilos de vida ou tratamentos de edição genética que permitirão otimizar o estado de saúde.
De acordo com essas alterações você consegue encomendar na net as refeições personalizadas ao seu gosto e necessidade que serão entregues no local onde se encontra usando drones. O pagamento vai ser feito usando criptmoedas através de sistema quânticos de blockchain (13), (14).
No seu bairo usa um jardim comunitário isolado (uma espécie de estufa comunitária) onde todos podem cultivar alimentos de acordo com certas especificações. Não precisa de estar sempre presente uma vez que existem uma série de pequenos robots familiares que fazem o trabalho principal.
Em casa o seu sistema de IA vai definir-lhe um ambiente especifico que ajude a fazer hipnose, técnicas de relaxamento ou dormir de acordo com o cansaço e stresse que os dados biométricos apresentam.

Otimização de saúde daqui a uns aninhos…

A farmacoterapia vai conhecer novos desenvolvimentos em que se vai juntar o que se separou. Os princípios por trás dos medicamentos e da fitoterapia vão associar-se.
Deseja-se efeitos rápidos como os obtidos pelos medicamentos, mas sem os efeitos secundários, pretende-se usar a combinação de princípios ativos da fitoterapia mas sem a incerteza acerca da qualidade e eficácia dos mesmos (muito dependentes do local de cultivo, garantia de veracidade e qualidade da composição das fórmulas, melhor biodisponibilidade, etc…).
Os estudos futuros vão permitir construir fórmulas baseadas na combinação de princípios ativos que até aqui não foi possível fazer. Isto vai diminuir os efeitos secundários da medicação ao mesmo tempo que permite abordagens clínicas que englobem um maior número de vias de tratamento (atuando em diferentes grupos de genes, vias de sinalização celular, etc…).
Vamos olhar para o tratamento pela complexidade do funcionamento celular e de interações bioquímicas usando os princípios das formulações tradicionais, ao mesmo tempo que se consegue obter os resultados mais rápidos e seguros.
Os medicamentos do futuro serão feitos de acordo com os princípios de combinação de plantas das farmacopeias tradicionais. Engenharia enzimática, edição genética e sistemas de nanotransporte vão permitir que os suplementos aumentem a sua eficácia clínica ao mesmo tempo que se abandonam os medicamentos mais tradicionais baseados num único princípio ativo.

Conclusão sobre o futuro da farmacoterapia

O tempo dos medicamentos como os conhecemos está acabado. A farmacoterapia tradicional também. No futuro da farmacoterapia vai ser difícil fazer a distinção entre a noção de medicamento e fitoterápico atual. Chamemos-lhe “fitomedicamento” ou “bioterapêutico”.
Vão ser produzidos em laboratório como acontece com os medicamentos atuais. Mas terão uma composição pensada em múltiplos níveis de ação como acontece com a farmacologia tradicional. Não serão baseados numa única molécula mas num conjunto de princípios ativos e vão conseguir conjugar o efeito imediato mais forte dos medicamentos com menos efeitos secundários como acontece com a farmacologia.
Vão ser menos pensados em termos de sintomas definidos por um paradigma de saúde (classificação de doenças) e mais pensados em termos de equilíbrio e homeostasia bioquímica atuando em vários níveis da comunicação celular. A lógica será a otimização de saúde e não a prevenção da doença. Vão atuar a um nível em que existe ligeira probabilidade da doença aparecer e nunca para tentar aliviar os sintomas da doença. Vamos ser cada vez mais saudáveis.

Bibliografia